quinta-feira, 27 de agosto de 2009

INTERROGAÇÃO

INTERROGAÇÃO

Neste tormento inútil, neste empenho
De tornar em silêncio o que em mim canta,
Sobem-se roucos brados à garganta
Num clamor de loucura que contenho.

Ó alma da charneca sacrossanta,
Irmã da alma rútila que eu tenho,
Dize para onde eu vou, donde é que venho
Nesta dor que me exalta e me alevanta!

Visões de mundos novos, de infinitos,
Cadências de soluços e de gritos,
Fogueira a esbrasear que me consome!

Dize que mão é esta que me arrasta?
Nódoa de sangue que palpita e alastra…
Dize de que é que eu tenho sede e fome?!

Florbela Espanca

Mais um dia...

Mais um dia… - 27/08/09

Hoje, foi mais um daqueles dias que me trouxe, com o despertar, a sensação de ter o mundo às costas…
O peso era tal que me cravou à cama. Ainda tentei erguer-me, umas quantas vezes… virei-me para o lado, agarrei a almofada com força… ao mesmo tempo enroscava o meu corpo, num querer fechar a porta ao mundo…
O calor emanado dos lençóis, oferecia-me abrigo… a almofada que agarro contra o peito, num ritual diário preparativo para o ingresso no mundo inconsciente dos sonhos, oferecia-me amparo…
Ali fiquei… fechei os olhos, na tentativa de retornar a esse mundo. Esforço vão… num ápice, já a minha mente se povoava de pensamentos… preocupações, lembranças… e uma inquietude irrefreável invadiu-me o corpo.
Por mais que a minha vontade fosse permanecer ali, mais uns instantes, nada feito… Esse mundo “pesado” exigia a minha presença, no cumprimento das obrigações que me cabem… as minhas e, inevitavelmente, as de quem me é próximo.
Mais um dia “fugiu” sem me aperceber e de todos tinha “cuidado”… excepto de mim.
Mais um dia findo, onde não coube espaço para o meu EU… que grita por atenção, por mais ínfima que seja… já tão fragilizado pela minha constante ausência …
Encontro-me exausta de dias assim… contudo, brotam desenfreadamente…
Dias enfadonhos que me fazem sentir vazia… apesar do “dever cumprido”… que já não me basta…
Dias em que a melancolia me invade, amiúde, nos últimos tempos… companheira indesejada que tento arredar, com as forças que me restam, entre derrotas repetidas…
Não se anuncia… surge sorrateira…
...impele memórias que desejo ver longe e contra as quais mantenho constante luta, em estado de vigília, mas que me invadem a mente no mundo inconsciente dos sonhos.
A noite oferece um manto ao meu corpo, protegendo-o para o revigorar… mas também inflama, através dos sonhos, emoções e sentimentos abafados…
Mais um dia no “carrossel” da Existência Física trivial onde, quantas vezes, não remanesce espaço para a satisfação do Espírito…
Mais um dia que semeia em mim melancolia…
Manela

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

... No limite...


“Mas como ser possível viver aí? Como aguentar o excesso divino? Todo o limite é irrespirável – mesmo o do espasmo amoroso, como o da amargura violenta, ou o da violenta alegria.E no entanto, o mais doloroso do excesso não é talvez o que há nele de excessivo, mas sim o que há de instantâneo e de frágil. Porque se o homem é de mais para si, apenas nesse de mais ele é o homem verdadeiro.

”Vergílio Ferreira in Invocação ao meu corpo (Presença ausente)

domingo, 16 de agosto de 2009

Sem rumo... - 16/08/09


Sem rumo, perdida neste meu trilho espinhoso…
... e o Tempo, esse, persiste em arrastar-me brutalmente…
Estropiada e já sem forças, nada faço para travar este curso.
Rodopio, atordoada, na tempestade voraz que me arrebatou…
... presa na teia que a vida me fiou.
Exausta, já não ofereço resistência.
Sem razão aparente?... só de aparente tem…
Num Olhar turvado, desvitalizado, não encontro saída deste turbilhão, que me inflige suplício permanente…
Aguardo, serenamente, que a intempérie acabe por me desintegrar…
... transformar em grão de pó, da Terra que me moldou.
Lutar contra tamanho Poder?
Hoje, resigno-me… já não ofereço oposição.
Debati-me até a exaustão…
Desta Vida levo solidão, sofrimento e raríssimos momentos “felizes”... tão raros que se diluíram perante o todo.
A Esperança, que nos mantém, sucumbiu perante o peso da Dor.
Avisto, ao longe, a miragem da Manela sonhadora… a que lutava contra obstáculos…
... Sonhava, tinha Esperança… “alimento” da sua força…
Encetei um percurso sem alento...
Aqui, já nada sinto… não me inquieta o que possa advir…
... quando perdemos a Esperança, iniciamos o processo que leva ao fim…
Grande parte de mim já se encontra do outro lado...
Um Adeus é o que desejo a esta Vida…
... um “Adeus e ponto”.
Manela

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

"Descalça"... - 10/08/09


Atravessei mais um caminho de alguém… foi tão breve… passou juntou de mim sem me encontrar…
Sentires comungados com alguém cuja identidade tem acompanhado o meu percurso - Florbela Espanca.
Naquele “ponto” da vida em que o remanescente do nosso caminho é cursado por nós, sob o nosso Livre Arbítrio, a nossa Consciência, a nossa Razão…
… Solitário…
Decidi palmilhá-lo “de pés descalços”, desprovida de resguardo que pudesse encobrir qualquer partícula que lhe pertencesse.
Essa foi a minha escolha: SENTIR a Vida na sua íntegra. Talvez por me ser fundamental esse “alimento”, para que esta Passagem faça algum sentido…
Se tivesse escolhido “calçar-me”, hoje não poderia dizer: ainda bem que decidi Sentir! Que bom é ter Vivências… TODAS!
Hoje sou “Assim”, não sei bem o quê… mas sei que quero continuar a caminhar “descalça”…
Manela

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Lágrimas - 05/08/09


… e dos meus olhos descem lágrimas
que não consigo controlar...
Descem pelo meu rosto,
em carícia delicada…
Carregam e transbordam Sentimentos,
Dor que a minha Alma já não sustenta…
… e nos meus olhos voltam a nascer,
mais e mais...
Cobrem o rosto, turvam a visão,
DEIXÁ-LAS SAIR!
Pois tanta Dor preciso libertar!
Inundam o corpo mas lavam a Alma,
DEIXÁ-LAS CAIR!
A nascente acabará por secar, um dia…
…para uma nova brotar.
DEIXÁ-LAS EXISTIR!
São testemunho de que Sentimos!
Rendo-me ao que de melhor e pior existe em mim – EMOÇÕES.
Quem vive sem as QUERER sentir, não conhecerá a FELICIDADE…
DEIXÁ-LAS VOLTAR!
…sempre.
Manela

Porque me fizeste assim? - 05/08/09


Dá-me as provas que Quiseres, mas toma-me no Teu colo, de quando em quando e enche o meu Ser com a Tua Energia, para que avance no trilho que me cabe seguir.
É tortuoso, sim… mas no sofrer Cresce o meu Ser e na dor encontro coragem para o percorrer, por desejar, na eternidade das existências, estar perto de Ti, um dia.
Tropeço muitas vezes, caio, desvio-me da “Estrada da Luz”…
Ser Humano, quão imperfeito és!
Somos o que quisermos ser. Uns escutam a “Voz” que existe em todos e seguem, confio, em Sua direcção.
Podemos escolher seguir por labirintos sem saída ou pelo curso que leva ao “Fim”.
Estar para Evoluir e Elevar ou sucumbir no abismo onde a Luz não consegue chegar…
Considero que a “Voz” não é apenas Razão. A “Voz” é cada um de nós e Ele, Espírito e parte do Todo… parte Dele.
Quem escuta a “Voz” e a respeita é bafejado pela Sua protecção, assim penso… como também penso que Ele quer a nossa felicidade Aqui.
Ser infeliz ou ser feliz?
De que lado me encontro?
Daquele que inflige permanente tortura… e em consciência cabe a mim deixar este lado, oposto ao que Ele me deseja.
De tanto exigir a mim, acabo por, sem querer, me perder em dor sem aparente fim… por tantas inquirições ao que Sou e ao que faço para Ser, talvez…
PORQUE ME FIZESTE ASSIM?
Por mais que me vasculhe, não encontro resposta à pergunta que fiz e sei que estou a pretender mais do que me é concedido conhecer…
Manela

terça-feira, 4 de agosto de 2009


Em seguimento da última mensagem e já seca a minha fonte , aqui deixo, de alguém admirável:

" Maria das Quimeras me chamou
Alguém... Pelos castelos que eu ergui,
Plas flores de oiro e azul que a sol teci
Numa tela de sonho que estalou.

Maria das Quimeras me ficou;
Com elas na minh'alma adormeci.
Mas, quando despertei, nem uma vi,
Que da minh'alma, Alguém, tudo levou!

Maria das Quimeras, que fim deste
Às flores de oiro e azul que a sol bordaste,
Aos sonhos treslocados que fizeste?

Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?...
Aonde estão os beijos que sonhaste,
Maria das Quimeras, sem quimeras?

Florbela Espanca

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ate já...


...não sei se voltarei aqui... já nada me diz nada... a fonte da minha inspiração secou...
Até um dia, talvez noutra existência...
Já não me inspiro nas palavras de alguém a quem desejo o melhor desta vida,
Manela

Ser - 06/06/09


Ser não é apenas estar é mudar.
Quantos apenas estão, sem saber nem querer saber o Fim de Ser.
Estes são do Ser, existência medíocre.
Serás também Ser que não o é?
Ou és Ser na corrente da existência que merece o dom de Ser?
Daquela que Dá sem querer nada, que Vê, que contribui para a harmonia do Todo.
…Ser vale a pena se Estar for do teu Nada para o Todo.
Manela

Leva-me daqui! - 03/08/09


Nos meandros desta existência me perdi… por não mais desejar o que não vivi, ou o que poderia viver, por não querer o Agora, tão pouco o amanhã…
Que saudades, meu Amor Maior, minha tia e mãe querida…
… já não tenho a segurança do seu colo, a força da sua existência física…… anseio, agora, por si ser recebida…
Vou caindo no abismo desta vida, sem oferecer resistência…
…“No meio do túnel da vida, anseio pela luz”.
Quero transpor esse véu translúcido que nos separa … o Aqui poderia ser Aí, se não me encontrasse presa nesta rude matéria .
Almejo por essa existência, onde os sentimentos Humanos não têm lugar…
Acredito em Ti, sei que não posso ir sem Teu consentimento… por isso Te peço, em total desespero, Leva-me daqui!
Não me faças sofrer mais deste lado, deixa-me fazê-lo aí, longe dos desejos Humanos que nos prendem e tornam menores… Seres inferiores da existência, que a condição da matéria não permite libertar.
Por favor, Leva-me daqui!
Manela